Domingo, Novembro 25, 2007

O trabalho como arma reaccionária

O que me leva a escrever este texto é a constatação de um facto que, pelo menos a mim, me incomoda: não pude deixar de notar que a actividade dos nossos colectivos (tanto o CEA em Portugal como o ED no Brasil) decresceu aquando do início de uma actividade laboral por parte de integrantes de ambos os lados do Atlântico. Ou seja: quando começamos a trabalhar, a nossa disponibilidade para levar a cabo trabalho revolucionário decresceu enormemente, tanto por falta de tempo como por cansaço.

O trabalho obrigatório, o esclavagismo das 9h às 5h, ou outros horários menos nobres, dívidas oblige, tornou-se uma parte integral da sociedade moderna, é uma parte tão integral que tanto os comunistas como os anarquistas convencionais já discordam somente acerca da divisão dos lucros criados por esse esclavagismo e nunca, jamais, acerca da natureza do próprio trabalho.

E porque trabalhamos? Porque vivemos! O trabalho tem um papel tão proeminente na sociedade actual que é considerado como algo natural, como parte essencial e prioritária da vida. Eu disse prioritária? Pois sim, o homem moderno vive para trabalhar, façam um pequeno cálculo acerca do tempo que passam no trabalho, a caminho dele ou no regresso dele e depois comparem com o tempo que passam com a vossa família ou a fazer algo de que realmente gostam e consideram útil.

Voltemos um pouco atrás e analisemos a minha referência o trabalho como esclavagismo remunerado, ora bem, esclavagismo porquê? Todo o trabalho forçado, efectuado contra a vontade de quem o desempenha, deve ser considerado esclavagismo. E porque trabalhamos? Não é só porque vivemos, nem tampouco para comer, a esmagadora maioria do homem comum moderno trabalha… para pagar dívidas. Exacto, dívidas, o homem moderno trabalha para pagar os empréstimos que os bancos lhe cederam para obter uma casa ou, em muitos casos, uma viatura poluente alimentada com recursos orgânicos não renováveis (leia-se: a gás ou derivados de petróleo).

Portanto, o homem moderno trabalha e recebe uma determinada quantia do seu patrão (capitalista, uma vez que a maior parte das empresas fazem parte de conglomerados multinacionais) e depois entrega a maior parte dessa mesma quantia ao banco (outra entidade capitalista). Ou seja, o dinheiro acaba por nunca sair das mãos do capitalismo, está nas mãos do trabalhador apenas como mera ilusão passageira, passa de uma entidade capitalista para outra entidade capitalista.

Mas regressemos ao cerne deste artigo: o trabalho como arma da reacção! Quanto mais atarefados estiverem os homens, e mulheres, modernas com o pagamento de dívidas e empréstimos, por vezes para comprarem coisas de que realmente não necessitam, pouco ou nenhum tempo sobrará para analisarem o mundo em que vivem nem sequer as condições em que são forçados a viver, e nunca raciocinam acerca do percurso do deu dinheiro, que circula por si mesmo. Se não conseguem analisar o mundo nem as condições em que vivem, muito pouco se poderão revoltar uma vez que nem percebem quão explorados estão sendo. E sem revolta não poderá existir uma revolução.

Não sugiro que nos mudemos todos para uma cabana na selva como Ted Katzinsky fez, e muito bem, e que a partir daí analisemos os problemas da sociedade moderna, se bem que isso seria um bom começo, um óptimo começo. O que peço é que pelo menos parem um pouco e considerem o vosso papel nesta sociedade, ponderem sobre o que lhes aconteceria se amanhã deixassem de trabalhar, descubram que são escravos. É que, muito sinceramente, é impossível uma revolta dos escravos sem que estes percebam primeiro que são escravos. Depois de reconhecerem o papel que desempenham actualmente, depois de reconhecerem que realmente são obrigados a trabalhar e que nem fazem um trabalho de que gostem, então, com essa consciência adquirida da condição de escravo, será possível levar a cabo uma revolta dos escravos contra os seus mestres.

A sociedade moderna não durará para sempre, embora os políticos insistam que é sempre necessário trabalhar mais arduamente e por mais tempo para desenvolver a economia e a autonomia nacional, já muitas pessoas despertam para a realidade artificial que são os Estados-Nação e as pátrias, instrumentos criados artificialmente há milhares de anos para benefício de uns poucos e exploração de muitos. Mesmo actualmente o ser humano retém a sua capacidade de identificação identitária ao local, ao comunitário, uma reminiscência do espírito tribal ancestral, que ainda bate forte no peito destes selvagens domesticados e escravizados à força.

Não sei se conhecem Robert Charroux, caso não conheçam explico já que é um arqueólogo um tanto ou quanto louco, provavelmente tão louco quanto se possa ser louco e mesmo assim conseguir publicar e vender livros. De quando em vez leio Charroux, não porque as suas teses loucas me divertem, mas porque me dá esperança. E esperança porquê? Ora bem, uma das teses de Robert Charroux é de que a civilização é cíclica, nós evoluímos, inventamos, depois acabamos por ir longe demais e destruímos tudo, quando destruímos tudo o homem regressa ao seu estado primitivo original. O mesmo nos seus livros acredita que a civilização moderna não é nada de novo, já por muitas vezes tivemos sociedades como este e, defende ele, muito mais avançadas que esta, com viagens planetárias inclusive, mas todas implodiram e o homem regressou ao sue estado primitivo ancestral, infelizmente – para nós – recomeçando a civilizar-se e a modernizar-se.

Pode ser uma tese louca, pois quem a promove certamente que me parece louco (basta dar uma olhada aos títulos dos capítulos dos seus livros), mas por ser louco não significa que não tenha alguma razão. Parece-me reflectir o desejo que muitos de nós têm de destruição desta sociedade moderna, castradora e esclavagista, o desejo de um regresso ao nosso papel complementar da mãe Natureza.

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